sexta-feira, novembro 09, 2007

de omnibus dubitandum

O que eu quero reiterar é que toda sociedade, até hoje constituída, da qual temos conhecimento, sustentou-se na geometria pirâmidal em que poucos pensam por muitos. E, dessa forma, decidem por eles. Seja direta ou indiretamente. Cônscia ou inconsideradamente.

A pergunta então é simples: o que faz um homem ser uma personalidade em algum ramo da reflexão humana?

Por ordem: Seu estudo amplo e profundo em determinado tema e o sucesso em estabelecer suas considerações sobre isso.

Em outras palavras, ele precisa se tornar uma autoridade no assunto. É preciso que uma maioria lhe dê crédito. Para isso acontecer não há fórmula que não passe pela subjugação do pensamento alheio à certezas particulares.

Essas certezas, principalmente no diz respeito às ciências não-exatas, mas não exclusivo à elas, fundamentam-se inicialmente em crenças pessoais que só conseguem ampla receptividade nos calcanhares da generalização.

Seus arautos, muitas vezes, precisam depositar “pedras” sobre um assunto para alcançar o máximo possível de uma sensação de veracidade. Essa necessidade, possivelmente, ganhou força pelas delimitações feitas no conhecimento humano, as quais titulamos de campos de estudo científico.

Ora, toleremos os vícios, é singularmente inviável tratarmos o conhecimento como ele o é: uma variável aberta e à tudo interligado; Eternamente incompleto, indefinido e multidisciplinar.

O que eu quero dizer é que, em prol da reputação de uma ciência-porção, reprovo a aceitação de qualquer tipo de conhecimento pré-estabelecido como sendo um parecer absoluto. E, quanto mais dogmático for, mais suspeitas jogarei em cima dele.

As ciências se tornam obsoletas quando deixamos de questioná-las. Todos nós: autores e leitores. Gosto dos autores renomados e esse post passa longe de ser uma crítica. É , quando muito, um recordar de que eles são humanos. Tanto quanto o somos nós.

Um filósofo desinibidamente desconfiado me advertiu: sendo a filosofia o amor [filo] ao saber [sophia], o filósofo só existe enquanto leitor. O pensador amará à sua filosofia mais que qualquer outra. Estranho seria justamente ele negar isso.

Sou simpática à crenças mas, sobretudo, as que não se julgam verdades. Gosto das celebridades por trás dos argumentos mas, especialmente, daqueles que conseguem duvidar facilmente de si mesmos.

Para mim, de omnibus dubitandum [de tudo duvidar] é algo para apostar.

Mas eu é que não vou entrar na fila, que já há muito se formou, para por pedras sobre esse assunto. Isso é o que eu penso e, sendo assim, é o que eu tenho à dizer.

5 comentários:

Charleaux disse...

Moça, eu não sei como fazer desse comentário uma epígrafe absoluta, evitando que você me veja como alguém acima dos demais por vociferar verdades mais verossímeis que as contradições que certamente convivem com o que eu vou dizer, mas, mesmo assim, aceitando o risco que sua própria tese propõe devo fazer com que você saiba que é uma delícia ver alguém pensar tão bem assim e dizer de jeito claro e elegante. Vc deve ser uma pessoa muito bonita.

Desmontagem Cênica disse...

Phantastiké! Me deliciei com suas palavras, idéias, pensamentos! Despertou em mim a vontade de voltar a escrever outra vez!Obrigado pela presença no meu blog! Abraço

C . R disse...

Excelente raciocínio...

Jorge disse...

Lisa, sobre esse assunto vale apena ler - se é que vc já não leu - "A função do Dogma na investigação Científica" de Thomas Kuhn, um filósofo da ciência, porque um conhecimento só se constrói quando a partir de um dado momento uma tese se torna incontestável, ou seja, ela assume uma função dogmática, aceita por todos, o que em alguma medida a aproxima da função do dogma nas religiões.
Você esta 100% certa quanto esse principio da dúvida, a ciência no século XX, principalmente no pós II guerra, entendeu que todo conhecimento é temporário, e que aí citando Karl Popper, conhecimento só pode ser produzido de fato pela negação, ou seja, você só pode afirmar de fato o que um dado objeto ou fenômeno não é, mas não pode afirmar "ontologicamente" o que ele é.
Enfim , esse assunto dá pano pra manga e eu já tô começando a viajar.

ainsustentavellevezadoser disse...

Ótimo texto, o paradoxo que a ciência que deveria ser uma fonte de dismitificação dos dogmas e se tornou um grande ponto originário dos dogmas atuais da sociedade moderna.