terça-feira, abril 01, 2008

Vaca Profana

Eu costumava ser tão analítica há poucos anos passados! Não, não estou à me orgulhar disso. E, em minha defesa, quero computar que precisei ouvir Desolation Road apenas uma única vez para perceber que Robert Allen Zimmerman era o artista americano mais relevante no século que acabou de expirar. E quando eu digo americano, eu bem queria atribuir-lhe a faixa continental. Mas se pessoas desafinam até quando estão a falar o mesmo idioma, quem haveria de condená-las quando precisam ultrapassar fronteiras linguísticas? Além disso, só se pode sustentar a crença individual e, inúmeras vezes, não se lucra fazê-lo por muito tempo.

Embora ainda sinta traços fortes de uma filosofia dicromática e não dialética em meus instintos, estou vencendo a decepção que isso sempre me purgou. Ora, não é isso mesmo o sinal de que a relação causa-consequencia se abre às contraditoriedades?

Sim, estou sendo mais vaporoza do que permite a sensatez. Não peço desculpas, no entanto. Acordei mesmo com a disposição de tagarelar sem cerimônia. Quem põe os móveis p'ra fora limpa melhor a casa, dizia minha avó que não conheci.

Naqueles anos passados de que falei no início, minha melhor amiga era uma tal Emily Dickinson que nasceu em 1830. Ao contrário do que parece ser, foi ela quem me escolheu para amiga e não eu à ela. Logo no primeiro verso, me convocou:

I'm Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – too?


Soube logo que se tratava de uma singular mulher à tentar comunicação com outras. Quis lhe prestar as honras nesse último dia 8 de março que passou, mas esse foi um dia de oportunidades perdidas. Farei uso, então, do 1º de abril, mesmo correndo o risco de ser mal interpretada:

Emily, we all can understand you.
Now, they are also - Nobody - too.


Sim, todos na mesma embarcação! Tenta-se decidir ainda a direção. Há momentos que penso que vão todos se afogar tal Virgínia Woolf. Mas acho que é só para sentir o sabor impiedoso e reedificante de descobrir que posso estar errada. Lembro-me agora que sempre quis citar Virgínia aqui:

“Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial.

Escrever para si mesmo, sem dúvida, é coisa para gente ousada. E, (in)felizmente, o anônimato faz muita ousadia paracer modesta. De qualquer forma, o dia das mulheres já perdeu o sentido para mim. Não me sinto mais mulher do que qualquer homem e nunca gostei dessa distância de gêneros. Mas também com isso já não me importo. Uma coisa só é fardo se você tentar carregá-la e esse eu já deixei para trás.

Aliás, também quis comentar com alguém que havia muitos homens na minha última visita ao consultório ginecológico. Homens perfeitamente grávidos! Bom, muitos não é uma palavra precisa. Muitos significa apenas que é mais de um e que existem. Para ser sincera, esperava encontrar mais depois que pensei um pouco sobre o assunto.

Um vez eu cheguei a tentar uma lista das mulheres que admiro. Nessa lista havia nomes como Caetano Veloso, Goethe e Charlie Kaufman. Faz sentido - concluí - na lista de homens que admiro poderia incluir nomes como Elis Regina, Tarcila do Amaral e Sapho. A androgenia de moralidade desnuda desses indivíduos me faz querer colocá-los numa lista só para eles. Só para mim.

Também já quis fazer uma lista de intelectuais que ultrapassaram o conhecimento de sua época e não se distanciaram das massas. De filósofos comtemporâneos que não temem dar linhas ao biocentrismo. De músicos realmente engajados com a arte da música...

Há tantos exemplos incoerentes para se evitar, que tenho dificuldades para equilibrar-me sobre os referenciais.

Bem, preciso me despedir. Estão à bater na porta. Imagino que seja meu amor-próprio voltando do castigo que lhe dei. Já estou até vendo! Vai entrar pela porta remendado e cantando nossa canção favorita:

“Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo assim minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada”
«continua...»

3 comentários:

Seu João disse...

Tem um bluezinho humilde e sincero rolando hoje no Fulô do Sertão.

Emerson Cardoso disse...

Quando sai o novo texto? Não canso de vir te visitar! um abraço

Lisa disse...

seu joão: perdi... ;/

***

emerson: seu pedido é uma ordem! ;)