quinta-feira, abril 17, 2008

Pretérito-Mais-Que-Perfeito

Entendo agora o saudosismo na poesia de Carlos Drummond. Só se pode decifrar um sentimento quando o colocamos na bagagem, afinal.

Não é peso, quero deixar claro, é, antes disso, coisa que compensa a carga.

Numa noite dessas, abandonada pelo sono e importunada por certa lástima, passei a percorrer o passado em busca de noites que pudessem sossegar tal vigília involuntária e me fazer adormecer na sensação invocada pela memória.

De início vieram múltiplices lembranças e acreditei que deveria me ater às mais calmas. Logo desisti por entender que não eram pungentes o suficiente para arrancar-me do presente.

Passei, então, a trazer ao meu travesseiro, numa tentativa que beirava o desespero, as noites mais voluptuosas que encontrava.

Para o desaponto de minha vontade de desmemória, os encantos dessas noites haviam se esvaído junto com os desejos aposentados. Só sobravam lembranças detalhadas de sentimentos que já não pertenciam à minha capacidade de percebê-los.

Cheguei a pensar nas noites ruins para testar seus poderes de sobrepujar aquela angústia última que me tirava o descanso. Mas nelas também não havia nada que não houvesse superado ou não observasse com o amor dos que sabem perdoar a si mesmos.

Piedoso amigo é o tempo, que nos leva os anos com o doce beijo da compensação.

Foi assim que decidi exumar uma coisa mais forte, e comecei a listar as noites mais felizes de minha vida. E foi quando tentei posicioná-las em ordem de importância que descobri, na infância, o esplendor máximo da vida.

Que suprema é a felicidade que se vive nesses anos de pouca covardia e vontades ativas de ventura!

Quando ainda não temos as vivencias de fracasso que tanto moldam, na vida adulta, nossas atitudes.

Apenas atenção nos basta e nossos desgostos duram pouco mais que alguns minutos. Verte a última lágrima e já o esquecimento nos rouba a atenção para nossos livrinhos de colorir. Volta-se à repintar a vida sem sentir a falta de nenhuma tonalidade.

Descobri, dentre muitas, enfim, a noite mais feliz de minha vida. Enterrada até então sobre os anos de inércia reflexiva. Caso estejam a querer saber, foi a última noite de minha infância. Se existe um marco entre fases da vida, minha infância terminou aí:

Era o último dia de aula do segundo ano do ensino fundamental. Dezembro de 88. Fiz uma apresentação de Fada Açucarada no encerramento escolar que deixaria Tchaikovsky desiludido e sorridente ao mesmo tempo.

Naquela tarde, iria viajar para a casa de praia da minha tia Eurides, irmã de meu pai. Passaria o período de férias com alguns primos na beira-mar. Férias era uma palavra relativamente nova para mim ainda, mas a esperava como algo fantástico.

Não consegui lembrar de absolutamente nada entre a saída da escola e a chegada no litoral. Mas à partir desse ponto, todos os detalhes se juntaram às emoções vivenciadas e flutuaram na superfície de minha consciência.

Chovia. As lajotas do caminho de entrada estavam escorregadias. A má iluminação das lâmpadas amarelo-incandescente da sala denunciavam que o agito naquele lugar se dava nas horas diurnas. Havia comida na mesa e a televisão estava ligada. Os adultos conversavam, eu observava e respondia. Não era muito tarde pois me deixaram ficar acordada algum tempo. Também não era cedo porque as portas das casas já estavam todas fechadas. Minha tia prenunciou:

"Amanhã teu primo e tua priminha viram aqui, moram logo ali, está vendo? Tem uma turminha legal da tua idade na rua. Vamos levantar cedo e caminhar na praia, que tal?"

Que promessas, em ouvidos amadurecidos, poderim garantir tanta segurança e preencher tão completamente os sonhos como essas que se fazem aos pequenos?

Me levaram ao quarto que seria só meu e quando repousei os cabelos dourados de anjinha no travesseiro, estava tão apaixonada por ser quem eu era e estar onde eu estava que não conseguia dormir. Não cabia em mim de tantos planos de felicidade que arquitetava para as minhas férias.

A janela do quarto dava para os fundos e, embora estivesse fechada, os vidros estavam abertos. Pelas frestas, o doce burburinho das vagas à se romper na arrebentação adentravam. O mar vinha pessoalmente namorar meus pensamentos e não conseguia acabar de tecer as alegrias que me esperavam.

Aquele verão foi explêndido, e mudou muita coisa em mim. Mas noite como aquela nunca se repetiu. Depois dela já não era mais infância. Depois dela vieram muitos sonhos, mas nunca de uma vez só. Nunca um sem fim de sonhar.

Foi na noite que atravessara sonhando acordada, que encontrei a felicidade que procurava.

Passei a minha noite angustiada nessa noite de menina. E quando levantei para o desjejum matinal, recordei-me das aulas de Drummond. Especificamente de um verso de um poema chamado Infância. Poema que a professora me fez ler em voz alta para toda a classe e achei tão sem graça como me senti o lendo.

Que verso! Que aula! Que professora! Que desoberta tardia de importâncias temos na vida! Tardia, enfim, mas não tarde demais...

Termino como termina o poema, como quero terminar um dia a vida. Com as rimas livres de um poema modernista:

 

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Infância - Carlos Drummond de Andrade

3 comentários:

Anônimo disse...

Com certeza que a infância é a melhor época de nossas vidas. Onde podiamos sonhar sem preocupações, onde alcançar os momentos felizes ou a felicidade era simples e sem complicações que nos afligissem a alma. Contudo, isso deveria ser uma verdade para todos nós, uma vez que sabemos que nem todas as nossas crianças, podem desfrutar de tal felicidade na melhor fase de nossas vidas e muito menos depois que ela se vai.

-=Joe=- disse...

Noites em claro, expectativa ou monotonia invadindo nossa medíocre e amada rotina. Penso no sono como o desperdício vital que somos obrigados a nos submeter, sem benefícios práticos a não ser capacitar uma plenitude de viver. Quando falta-me, entendo estar pronto para viver intensamente um pouco mais, e deleito-me com as oportunidades que surgem, ou as crio pessoalmente para não verter ao abismo o tempo que me resta. Convidá-lo a aparecer ou esperar por ele é impraticável para mim, e admiro quem assim resignadamente o faz.

Beijos.

Lisa disse...

anônimo bem lembrado...
***
joe o que você chama de abismo eu chamo de everest. quando penso em tudo que ainda vou fazer, quero ter noites de descanso para escalar o tempo que me resta. ;)