Durante os dias em que tivemos de conviver, notei que Deb adiantou uma das suas horinhas de soneca diárias para ajustar com uma das minhas horinhas de leitura pontuais.
O momento consistia em eu - para aproveitar a iluminação da rua sobre o livro - me sentar em frente à vidraça da sala e ele - para espiar o movimento do lado de fora - subir na cadeira comigo. Esses instantes de vigia exterior foram ficando cada vez mais curtos e, ao que parece, a alternativa de se esparramar no meu colo e cochilar com carinhos, entre uma virada e outra de página, foi ficando mais atrativa.
Quanto à plantinha com problemas sentimentais, não pude evitar o pior: está tão enferma que receio não ser possível mais a recuperação. Me sinto prostrada, mas não culpada, porque tentei de tudo: conversas ao pé das folhas, retira do pó acumulado, uma tarde no jardim florido do restaurante que fica ao lado, televisão programada para ligar na hora da novela, o disco compacto "III" do Led Zeppelin (funciona comigo desde os meus dezesseis) e "Also Sprach Zarathustra" de Strauss.
Nada! Nem uma reaçãozinha da doce alstroeméria que agora não exibe mais nenhuma flor. Cheguei a sugerir à dona que colocaria ela ao telefone com a planta, coisa que provocou risadas em nós duas. Ela se angustiou em garantir-me que tinha acertado em todas as dosagens de àgua e sol que me foram confiadas, e eu me consolei em aceitar isso.
Amanhã já não terei mais de me inquietar com esses compromissos, mas fico com a certeza de que sentirei falta e irei me inquietar com o pensamento de que não tenho, e ainda não posso ter, companhias como essas na minha vida.

♪ I don't know how I'm gonna tell you
I can't play with you no more ♫