Sete anos eram, mais ou menos, minha idade acumulada quando aprendi a ler, recebi o privilégio de memorar para sempre este dia. Lembro da sala de aula, da lousa, da expectativa, das sílabas, da dedução:

S e A, SA
P e O, PO
SAPO!
E fêz-se a imagem.
Comprou-me um livro o pai que tenho com o dinheiro que no bolso tinha porque me deixou escolher, e eu escolhi aquele porque pensei que caro livros não deviam ser.
Exemplar ilustrado de uma coletânea infantil, meu primeiro livro não foi um clássico literário, era apenas uma boa e comovente narrativa feita para pequenos corações. Suas figuras eram expressivas e eu, uma menina de detalhes.
Seu final não se apresentava no ponto gramático nem em um clichê disneyworld. Terminava reticente como a vida, deixando um mundo de conjecturas para me ocupar.
E fêz-se a imaginação.
Ganhou palavras novas o mundo, diminuiu-se a hora de brincar.
Encheu-se os olhos paternos de maternal olhar.
Muito das recordações que sou são livros, e daquele olhar que, hoje, briga para enxergar.
Hab ich ein ganzes Heer
Von ewigen Liedern gedichtet -
Mein Liebchen, was willst Du mehr?
Henrich Heine