Não raro, ocorre-me um desses sopros de memória em que um evento, outrora parcamente abstraído, apresenta-se surpreendentemente como peça central de um quebra-cabeças que há muito aguarda desfecho.
Ontem mesmo o ressurgir casual de uma frase, aparentemente simplória, desencadeou uma série de ligações que deveriam estar evidentes, mas que, até então, se figuravam independentes para meu processo investigativo sobre a construção da identidade individual.
Em verdade, da frase, só o reluzir deste fragmento lido em uma revista foi que me incendiou o pensamento:
“Tenho lembranças e não saudades”
O supracitado é assisada declaração de Mário Lago às vésperas de completar 90 anos. Pouco menos de meio ano teve ele de vida após tê-la pronunciado, mas a palavra ainda respirava em meu pensamento e, creio, ainda produzirá reações quando eu já estiver me juntado ao seu artífice na poeira do mundo.
De início, devo ter apenas julgado um sentido de aderência ao presente contido na sentença. E talvez assim o tenha sido. Mas posso assegurar que nada é o que é, apenas. O explícito é somente a face superficial dos sentimentos e ideais que o moldaram.
A idéia de um presente que regozija o passado sem apegos, a ponto de não desejá-lo ao alcance de uma reforma ou sonhar revivê-lo, pressupõe uma autoconfiança capaz de tomar decisões comprometidas com o futuro. E um reconhecer honesto das intencionalidades dentro das próprias atitudes.
Não foi o semblante envelhecido, que o recapitular da memória me trouxe do autor, que me fez desconfiar de significados mais íntimos no seu discurso. Foi a temperança e a poesia implícitas em sua figura e em seu trabalho ao longo dos anos. Presente desde suas primeiras composições.
O autoconhecimento é que concede uma identidade coesa. É isso que nos faz desfrutar com confiança o momento de proveito. E ultrapassar com tranquilidade as horas indistintas da vida.
É evidente que, com o suceder dos anos, todos somos obrigados a encarar a prática da autoconsciência. Só que a postura de esperar que isso aconteça de forma inconsciente, não seria assumir um comportamento irresponsável por si mesmo?
Um hoje sem saudades me faz pensar num hoje pacificado com a conformidade do ser. Conhecer e compor o caos interno é o que salva a alma do abismo fatalista que parece circundar a existência humana.

Você já se analisou hoje?