quinta-feira, março 20, 2008

Equinócio

tenho mesmo que sair da cama? pensei enquanto abria os olhos.

sim, tenho. mas por quê mesmo? insisti na imobilidade.

o telefone começou a bipar mensagens carinhosas chegando.

deslizei os pés para o chão e iniciei o passo-à-passo diário.

ao passar pelo espelho, uma inevitável inspeção:

uma enfermidade recente me levou de volta aos 46 quilos que tinha aos 14.

uma nostalgia de véspera me trouxe os cabelos pretos que agitava aos 18.

nada mal para quem está completando 28 - penso.

hoje!

vinte dias de março...

dia que eu nasci. que meu irmão quebrou meu braço. que o prefeito faleceu em frente à nossa casa.

tudo isso pescou a memória obstinada de meu velho pai.

mas tem mais uma coisa. o quê é?

einstein apresentou a teoria da relatividade nesse dia...

uma brisa gélida entra pela janela, e me abraça docemente.

sim, hoje!

dia e noite terão mesma duração. o sol desliza pelo equador celeste.

na rua observo o dia ainda cromatizado pelo sopro da expressão estival.

há algumas nuvens indecisas no horizonte.

a luz está mudando de um círculo polar para o outro.

a vida sorri na essencialidade de seus ciclos contraditórios.

um esquecido Tom correu-me as veias e despejou-se no coração:

para uns, promessa de primavera. para outros, princípio outonal.

enquanto o pulsar me subia aos ouvidos as batidas do refrão:

"são as águas de março fechando o verão..."



O Tom Jobim fez as duas letras:
jazz-inglês-primavera. bossa-português-outono.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Há saída para o existencialismo?

Foi o que o Jorge perguntou. Não perguntou, de fato. Pensou consigo e, como alguém que “pensa alto”, comentou no indigitável.

Ora, será que é comigo? – acordou rapidamente meu eu-sabichão.

Após dois segundos de petulância incontida, passei eu mesma a percorrer as estradas que encaminharam o homem ao sentimento existencialista, e, por sentido oposto, remetê-lo-iriam à saída.

De onde viemos? E para onde vamos?

Ocidente e Oriente já tiveram suas respostas engatilhadas para essas questões. Nem sempre essas respostas eram homogêneas dentro dos respectivos hemisférios, mas estavam lá. Prontas para serem disparadas.

No Ocidente, porém, após um período de instabilidade política, reuniu-se o contingente sob o telhado de uma doutrina religiosa e universalista que não admitia diversidade nem contradições na sua interpretação da vida. E o fatalismo aconchegado nesse modo de pensar impediu, por muito tempo, que se lançassem dúvidas sobre o assunto.

Mas a natureza do homem, que sempre o leva à questionar as leis que lhe regem, acabou por atravessar os véus do poder despótico e, ao romper essa opressão, sentiu a bofetada das questões existencialistas lhe acertarem pesadamente a cara.

Uma torrente de cientificismo correu o mundo em busca de esclarecimentos, mas na medida em que elucidava as questões de ordem natural, mergulhava cada vez mais o homem em abstrações e perplexidade diante do inexplicável que, então, apresentou-se em proporções incomensuráveis.

De modo sucinto, o sentimento existencialista pode ser descrito como o efeito emocional desencadeado por toda a variedade de incertezas que envenenam a existência humana. Foi Sartre quem, pela primeira vez, usou o termo para se referir ao fluxo filosófico do qual ele mesmo acabou sendo o maior di-vulgarizador.

Não se engane, o existencialismo não é um sentimento exclusivo dos a-teístas. O próprio Sartre era cristão seguro!

O existencialismo se manisfesta quando a crença de um indivíduo ou de uma sociedade vacila. A saída tanto pode ser libertar-se das crenças como agarrar-se à elas sem contestar.

Mas, quantos homens são realmente capazes de fazer uma coisa ou outra sem fraquejar? E que sociedade estaria em pleno acordo para um tal feito por livre decisão?

A dúvida existêncial parece ser a verdadeira alma do homem. Não há saída em vida.

O existencialismo, como escola do pensamento, não surgiu para os teístas afirmarem uma verdade absoluta. Nem para os a-teísta contestarem ela. Ele está entre ambos para lembrá-los que não há respostas para todas as perguntas. É o sentimento comum que une a humanidade. Explorá-lo é expor, talvez para que perdoemos uns aos outros, aquilo de que todos sofremos: ignorância.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

transformação artístitica

Despojado das horas não consagradas ao seu subnutrido intelecto, no fim de um dia consumido pelo aproveitamento, o sujeito recostou corpo e culpa nas fazendas que revestiam seu leito.

Ali, sobre a textura passiva dos tecidos artificiais, contemplando os volumes literários adormecidos na estante, reuniu os personagens que lhe representavam no dia-à-dia tal como, fora de cena, o diretor teatral solicitaria a presença de seu grupo de farsistas.

Condenou-se por enfrentar a vida à maneira que o ator afronta o tablado. Absolveu-se por não querer ser assim.

Havia muitas máscaras para subtrair. Protagonistas de comédias ou coadjuvantes de tragédias, eram todas suas. Eram ele nos mais variados arquétipos extraídos de sua singularidade. Adaptações moldadas pelo cenário e por toda a sorte de gente que adornavam os espetáculos verídicos em que ele contracenava.

Dissolveu-as. Dissociou as ações dos anseios para, constitutivamente, encaixar as peças que personificariam novamente a criatura que imaginava ser.

Explorou-a. Pacificou-lhe as contradições. Aliviou os pesos que carregava mutilando as importâncias que outrora havia aceitado sem contestar.

E, como à uma paisagem estéril, confrontou-se.

Não havia elevação ou subordinação para com nada. Consentia em sentir-se medíocre.

A vida se mostrou para ele como um suícidio lento, no qual preconceitos e prazeres eram subsídios que sustentava para apegar-se à ela por mais tempo.

Não discordou. Retribuiu-lhe com o sorriso de quem já sepultara alguns vínculos.

Desmistificada, ela lhe devolveu o gesto com a consciência do tempo que passa.

Assustado, sentiu-se agitar pela insignificância de pensar que existia, apenas.

Deitou a pena nos papéis e escreveu. Escreveu e quedou-se. Propagou-se. Perpetuou-se.

Cada despertar (con)textual que sucedeu àquele, tencionava dilatar a efetividade do seu ser. Mas, então, como uma idéia insensata a torna-se fatídica, retornava aos palcos da sua rotina.

Porém, recusava agora atuar de vítima. E, um dia, rejeitaria de todo a obrigação de representar. Haveria de continuar improvisando, mas seria, daquele momento para sempre, o escritor da história.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Into The Wild

Primeiro, vieram as linhas:
Jon Krakauer é americano, alpinista e escritor. Escreveu a deliciosa história, em formato paperback (brochura), sobre a vida de Christopher McCandless e cujo título encabeça este post.

No Brasil, traduziram-na por “Na Natureza Selvagem”. E, é claro, lançaram-na no famoso formato “contemporâneo e oneroso”.

Apenas quero desejar à ti, passante, que tenhas um dia entre tuas mãos um volume assim estimulante. Desejo, também, que tenhas tempo livre de tuas obrigações cotidianas para leitura tão modesta. E, por último, que encontres, em teus mesurados sentimentos, pulsação suficiente ainda para entenderes o que te estou à desejar.


Depois, veio a película:
Sean Penn é um ator magnífico, mas nas filmagens de Into The Wild ele fez as vezes de diretor e roteirista: adaptou o livro para o ecrã e repintou zelosamente as cenas dos acontecimentos.

Só isso. Sem críticas ou spoilers. Apenas o instigante voto indicativo de quem enamorou-se com o movimento que o cinema deu à aventura.

Quem o aceitar, no entanto, terá de esperar. A data para exibição no Brasil será, de acordo com o site, no dia 31 de Dezembro. Não indico releases digitais porque só há um TeleSync de má qualidade atualmente disponível.

Err... digo, porque é pirataria e isso é crime, hein!

Por fim, surgiu o som:
Os eufóricos fãs da Pearl Jam andam gritando aos quatro cantos que Eddie Vedder, o simpático vocalista da banda, lançou seu primeiro trabalho solo. Mas a coleção de 11 faixas, que leva também o rótulo Into The Wild, não é, no sentido fiel da palavra, um trabalho solo. É, na verdade, uma autêntica trilha sonora com participações adequadamente selecionadas.

Ao todo, são aproximadamente 34 minutos de músicas marcadas por vocais bem explorados e, em sua maioria, curtinhas e perfeitamente coerentes com o filme do qual são, de acordo com o ensejo, os acordes de fundo ou a expressão musical.

Quero avisar que livro, filme e coletânea musical são obras quase complementares de uma história verídica. Silencio, porém, sobre seus detalhes.

A faixa que ofereço, adiante, tem a letra assinada pelo músico Jerry Hannan e a versão digital disponibilizada por alguém que não conheço. Escolhi-a porque evidencia o teor do contexto sem revelar os desdobres do argumento. Além disso, é encantadora e só ela já vale um post!




à esquerda, foto tirada de Christopher McCandless
à direita, cena do filme Into The Wild

sexta-feira, novembro 09, 2007

de omnibus dubitandum

O que eu quero reiterar é que toda sociedade, até hoje constituída, da qual temos conhecimento, sustentou-se na geometria pirâmidal em que poucos pensam por muitos. E, dessa forma, decidem por eles. Seja direta ou indiretamente. Cônscia ou inconsideradamente.

A pergunta então é simples: o que faz um homem ser uma personalidade em algum ramo da reflexão humana?

Por ordem: Seu estudo amplo e profundo em determinado tema e o sucesso em estabelecer suas considerações sobre isso.

Em outras palavras, ele precisa se tornar uma autoridade no assunto. É preciso que uma maioria lhe dê crédito. Para isso acontecer não há fórmula que não passe pela subjugação do pensamento alheio à certezas particulares.

Essas certezas, principalmente no diz respeito às ciências não-exatas, mas não exclusivo à elas, fundamentam-se inicialmente em crenças pessoais que só conseguem ampla receptividade nos calcanhares da generalização.

Seus arautos, muitas vezes, precisam depositar “pedras” sobre um assunto para alcançar o máximo possível de uma sensação de veracidade. Essa necessidade, possivelmente, ganhou força pelas delimitações feitas no conhecimento humano, as quais titulamos de campos de estudo científico.

Ora, toleremos os vícios, é singularmente inviável tratarmos o conhecimento como ele o é: uma variável aberta e à tudo interligado; Eternamente incompleto, indefinido e multidisciplinar.

O que eu quero dizer é que, em prol da reputação de uma ciência-porção, reprovo a aceitação de qualquer tipo de conhecimento pré-estabelecido como sendo um parecer absoluto. E, quanto mais dogmático for, mais suspeitas jogarei em cima dele.

As ciências se tornam obsoletas quando deixamos de questioná-las. Todos nós: autores e leitores. Gosto dos autores renomados e esse post passa longe de ser uma crítica. É , quando muito, um recordar de que eles são humanos. Tanto quanto o somos nós.

Um filósofo desinibidamente desconfiado me advertiu: sendo a filosofia o amor [filo] ao saber [sophia], o filósofo só existe enquanto leitor. O pensador amará à sua filosofia mais que qualquer outra. Estranho seria justamente ele negar isso.

Sou simpática à crenças mas, sobretudo, as que não se julgam verdades. Gosto das celebridades por trás dos argumentos mas, especialmente, daqueles que conseguem duvidar facilmente de si mesmos.

Para mim, de omnibus dubitandum [de tudo duvidar] é algo para apostar.

Mas eu é que não vou entrar na fila, que já há muito se formou, para por pedras sobre esse assunto. Isso é o que eu penso e, sendo assim, é o que eu tenho à dizer.